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Morre Roberto Tibiriçá, maestro que uniu excelência e inclusão na música clássica brasileira

By SingArena Editorial · · Music News

Morre Roberto Tibiriçá, maestro que uniu excelência e inclusão na música clássica brasileira
TV Brasil / Wikimedia Commons (CC BY 3.0 br)

Regente que comandou as principais orquestras do país e transformou a Orquestra Sinfônica Heliópolis em referência, Tibiriçá faleceu aos 72 anos após dois anos de tratamento contra câncer.

Uma despedida para um dos grandes nomes da regência brasileira

O maestro Roberto Tibiriçá morreu nesta sexta-feira, aos 72 anos, em São Paulo. A informação foi divulgada pelo Theatro Municipal de São Paulo, instituição que abrirá suas portas para o velório e que teve Tibiriçá como diretor artístico do Instituto Baccarelli, administrador do teatro. Ele tratava um câncer há dois anos.

Com uma carreira de mais de quatro décadas, Tibiriçá construiu uma trajetória que transitou entre o rigor técnico da música de concerto e um compromisso raro com a democratização do acesso à cultura. Ele dirigiu algumas das orquestras mais importantes do Brasil, como a Orquestra Sinfônica Brasileira, a Osesp, a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais e a Orquestra Sinfônica do Paraná. No exterior, esteve à frente da Orquestra Metropolitana de Lisboa.

Em nota, o Theatro Municipal lamentou profundamente a morte do maestro e se solidarizou com familiares, amigos, colegas de profissão, músicos e alunos que fizeram parte de sua trajetória.

Formação sólida e início precoce

Nascido em São Paulo, em 5 de janeiro de 1954, Roberto Tibiriçá Passos começou a estudar piano aos oito anos. Teve aulas com Dinorá de Carvalho, Antonio Bezzan e Gilberto Tinetti, além de ter recebido orientações da lendária pianista Guiomar Novaes. O interesse pela regência o levou ao Festival de Inverno de Campos do Jordão, onde trabalhou como pianista nos ensaios da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp).

Foi nesse ambiente que conheceu Eleazar de Carvalho, com quem iniciou sua formação como maestro e de quem se tornaria assistente por quase dezoito anos. Tibiriçá venceu duas edições do Concurso para Jovens Regentes da Osesp e passou a atuar como assistente e principal regente convidado da orquestra. Uma carta de recomendação de Eleazar permitiu que estudasse com Lukas Foss, em Nova Iorque.

Nos anos 1980, trabalhou por um ano como regente assistente do Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa, com repertório concentrado em óperas. Antes disso, em 1974, já havia iniciado sua atuação como diretor artístico de gravadoras, coordenando na RGE/Fermata gravações de música de concerto — entre elas, o último disco de Guiomar Novaes, dedicado a compositores brasileiros. Também dirigiu a gravadora Copacabana, onde produziu o último álbum de Magda Tagliaferro.

Da Sinfônica Brasileira ao Heliópolis: uma carreira de pontes

Em 1994, Tibiriçá entrou na Orquestra Sinfônica Brasileira como diretor adjunto. No ano seguinte, assumiu a direção artística e a regência titular. Durante sua gestão, a orquestra apresentou no Brasil óperas de Benjamin Britten como The Rape of Lucretia e A Midsummer Night's Dream. Em 1996, regeu a Segunda Sinfonia de Gustav Mahler na Enseada de Botafogo, dentro do Projeto Aquarius — um marco na história de concertos ao ar livre no Rio de Janeiro.

De 2000 a 2003, foi diretor artístico e regente titular da Orquestra Sinfônica Petrobras Pró-Música, que mais tarde adotaria o nome Orquestra Petrobras Sinfônica. Com o conjunto, gravou em 2002 o Concerto para piano em formas brasileiras, de Hekel Tavares, tendo Arnaldo Cohen como solista, e os Choros nº 6, de Heitor Villa-Lobos. Também organizou ciclos de concertos e concursos voltados a jovens solistas, regentes e compositores.

Ao voltar a São Paulo, no fim de 2003, Tibiriçá assumiu em 2005 a direção artística do Instituto Baccarelli e da Orquestra Sinfônica Heliópolis, projeto social que transformou a comunidade de Heliópolis. Permaneceu até 2011 e participou da turnê europeia da orquestra em 2010, com o violinista Shlomo Mintz como solista. Entre 2010 e 2013, foi regente titular da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais. Em 2022, tornou-se diretor musical e regente titular da Orquestra Sinfônica do Paraná, posição que ocupava até sua morte.

Legado na Academia e na formação de novos músicos

Tibiriçá ocupou a cadeira nº 5 da Academia Brasileira de Música a partir de 2003 e tornou-se membro honorário da Academia Nacional de Música em 2018. Seu trabalho à frente de projetos como o Heliópolis e o Baccarelli foi fundamental para formar gerações de instrumentistas oriundos de comunidades periféricas, ampliando o acesso à música clássica no Brasil.

O maestro também atuou como diretor artístico de gravadoras e deixou uma discografia que inclui desde o repertório sinfônico tradicional até obras de compositores brasileiros, como Villa-Lobos e Hekel Tavares.

Velório e sepultamento

O velório será aberto ao público e acontece neste sábado (3), das 18h às 22h, no Salão Nobre do Theatro Municipal de São Paulo. No domingo (4), das 8h às 12h, o corpo será velado no palco da Sala de Espetáculos. O sepultamento ocorrerá às 13h, no Cemitério São Paulo, na zona oeste da capital.

A morte de Roberto Tibiriçá representa uma perda irreparável para a música erudita brasileira. Sua trajetória, marcada pela excelência técnica e pelo compromisso social, deixa um legado que seguirá reverberando nas orquestras, nos palcos e, sobretudo, nos jovens músicos que ele ajudou a formar.

Tags: Roberto Tibiriçá, música erudita, maestro, Theatro Municipal, Orquestra Sinfônica Heliópolis, BR MUSIC