Filarmônica de Berlim volta a São Paulo após 26 anos: por que a orquestra é um degrau acima
By SingArena Editorial · · Music News
Sob regência de Kirill Petrenko, a Filarmônica de Berlim se apresenta na Sala São Paulo nos dias 18 e 19, na temporada 2026 da Tucca. Entenda o que faz da orquestra alemã um caso único no mundo da música clássica.
Um retorno histórico
A Filarmônica de Berlim desembarca em São Paulo para dois concertos na Sala São Paulo, nos dias 18 e 19, como parte da temporada 2026 da Tucca. O reencontro com o público paulistano tem peso simbólico: o último concerto da orquestra no Teatro Municipal de São Paulo aconteceu 26 anos atrás. Sob a batuta do maestro titular Kirill Petrenko, a visita é tratada como um dos acontecimentos do ano na cena musical da cidade.
A comparação usada por críticos e admiradores é eloquente: receber a Filarmônica de Berlim equivale a trazer ao Brasil um grande museu internacional com seu acervo completo. Não se trata de exagero, mas de uma forma de medir o impacto de uma instituição que, ao longo de mais de um século, se tornou sinônimo de excelência orquestral.
Uma cooperativa autogerida
Parte do segredo está na estrutura. A Filarmônica de Berlim nasceu e permanece como uma cooperativa autogerida, em que os próprios músicos votam secretamente para escolher o maestro titular e a admissão de novos integrantes. Eles também opinam sobre repertório e gravações. Na prática, a orquestra não depende do poder público, como acontece com a quase totalidade das orquestras no mundo.
O processo de seleção é implacável. Os candidatos a ocupar uma estante precisam tocar diante da orquestra inteira, e todos votam em cada candidato. Depois dos primeiros dois anos, todos os músicos votam novamente para decidir se o novato deve ou não ser efetivado.
Por que o som soa diferente
O crítico inglês Tom Service, no livro Música como Alquimia, de 2014, descreve uma prática curiosa: em Berlim, os músicos de cordas não sabem onde vão se sentar antes do primeiro ensaio de cada semana. Cada um procura o lugar que considera melhor naquele momento — às vezes para aprender com um parceiro, às vezes para se afastar de outro que não foi bem na semana anterior. O resultado é uma pressão constante que se traduz em performances tratadas como se a vida profissional dependesse delas.
Some-se a isso a tradição de excelência construída por pouquíssimos regentes. Kirill Petrenko, eleito para a temporada 2019/20, é apenas o oitavo maestro titular em 144 anos de história. O primeiro foi Hans von Bülow, entre 1887 e 1892. Arthur Nikisch consolidou o prestígio nos 27 anos seguintes. Wilhelm Furtwängler, titular entre 1922 e 1945, liderou um período de altíssima qualidade musical, mas também um dos capítulos mais sombrios da instituição.
Contexto histórico
Fundada em Berlim no inverno de 1882 por 54 músicos, a orquestra se reorganizou em 1887 sob o apoio financeiro de Hermann Wolff. Desde 2018, Kirill Petrenko é o maestro principal. A orquestra já foi considerada a segunda melhor da Europa em lista de 2006, atrás apenas da Orquestra Real do Concertgebouw. Sua residência atual é a Philharmonie, projetada por Hans Scharoun e inaugurada em 1963, após o primeiro Concert Hall ter sido destruído durante a Segunda Guerra Mundial, em 1944.
No ano 2000, a orquestra gravou um CD e DVD com uma banda de rock, episódio que ilustra sua disposição de transitar por territórios além do repertório clássico. A relação com o Brasil, porém, é mais rara: a passagem de 2026 marca o retorno após mais de duas décadas de ausência nos palcos paulistanos.
O que esperar dos concertos
Os concertos na Sala São Paulo integram a temporada 2026 da Tucca e colocam o público brasileiro diante de uma orquestra que funciona como um museu vivo — para usar a metáfora do ensaísta J. Peter Burkholder —, mas também como um organismo em permanente tensão criativa. A combinação de autogestão, seleção rigorosa e uma linha de regentes extremamente seletiva explica por que a Filarmônica de Berlim é frequentemente descrita como um degrau acima das demais.
Para quem acompanha música clássica no Brasil, a visita é uma oportunidade rara de conferir ao vivo o padrão de execução que fez a fama da orquestra. E, como lembra a tradição dos concertos, a melhor música de concerto recompensa a atenção concentrada não apenas uma vez, mas repetidamente.
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