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Chico Chico fala sobre primeira turnê internacional e luta pela sobriedade: 'Busquei ajuda para tentar deixar de morrer aos pouquinhos'

By SingArena Editorial · · Music News

Chico Chico fala sobre primeira turnê internacional e luta pela sobriedade: 'Busquei ajuda para tentar deixar de morrer aos pouquinhos'
Simone Saback / Wikimedia Commons (Public domain)

Aos 33 anos, o cantor e compositor consolida uma década de carreira com o aclamado 'Let it burn/Deixa arder', indicado ao Grammy Latino 2026, e abre o jogo sobre o legado de Cássia Eller, perdas pessoais e o novo capítulo da própria vida.

Uma década de estrada e a hora de olhar para dentro

Chico Chico tem horror à conversa — ele mesmo avisa logo na primeira faixa de Let it burn/Deixa arder, canção-manifesto do disco que agora o leva a cruzar fronteiras. Mas, diante do convite do videocast Conversa vai, conversa vem, do GLOBO, o cantor e compositor de 33 anos encarou o desconforto e entregou uma hora de papo franco, daquelas em que a música é só o ponto de partida. No centro da conversa, a consolidação de uma trajetória que acaba de completar uma década e que, segundo ele, tem sido fundamental para acomodar melhor o peso — e a beleza — do legado da mãe, Cássia Eller.

“Isso tem um peso na minha vida para além de eu querer ou não. Mas era questão de me sentir mais seguro mesmo sobre o porquê de fazer o que faço. Não sei se encontrei esse balanço, mas me sinto um pouco mais confortável”, reflete. Não se trata, garante, de negar a herança ou de se aproveitar dela. Trata-se de estar pronto para entrar nessa seara sem a sensação de estar usurpando algo que, de todo modo, já é seu.

'Let it burn': um disco longo, raro e premiado

Lançado pela DeckDisc e indicado ao Grammy Latino 2026, Let it burn/Deixa arder é um álbum de 20 faixas e mais de uma hora de duração — feito quase na contramão do mercado de singles e playlists que domina a produção da sua geração. A opção pela extensão, explica, veio de uma proposta estética: dar espaço para a calma, para a escuta de um disco inteiro, e também para resgatar composições que não encontravam lugar em trabalhos anteriores.

“Queria um disco longo e não foi difícil convencer a galera, que comprou o barulho. Tem muita coisa que fiz pra ele, mas também um resgate de canções que não sabia onde utilizar em outros trabalhos e consegui amarrar nesse”, conta. O resultado, diz, o agradou — ainda que, como todo compositor, ele reconheça o eterno impulso de mexer mais um pouco: “Se acha que não precisa de mais nada na sua vida, para com tudo. Estou sempre querendo fazer alguma outra coisa”.

O show como organismo vivo

A turnê de Let it burn/Deixa arder chega agora ao primeiro circuito internacional, quase um ano depois da estreia nacional. Para Chico Chico, a diferença é abissal — e saudável. “Show é uma coisa viva. Você vai fazendo e a coisa vai tomando outra forma. Vão acontecendo coisas no show e você vai incorporando, o que é bom. Às vezes, dá ruim, mas mesmo quando dá ruim, dá certo”, diverte-se.

Antes de embarcar, ele cumpre agenda em solo brasileiro: Porto Alegre nesta sexta-feira, Belo Horizonte no dia 7 e São Paulo em 19 de dezembro. A temporada nacional funciona como uma espécie de ensaio geral afetivo para o público de fora, que agora conhece melhor o leque amplo de influências do artista.

A voz que se aprende na marra

Quem ouve o disco percebe um cantor mais seguro, com domínio maior das próprias nuances. Chico Chico, porém, faz questão de desmontar qualquer imagem de estudioso aplicado. “Cantar com mais domínio é uma coisa de tempo, vai lapidando. Mas não sou um estudioso da minha própria voz. Aprendo na marra cantando e vendo o que estou fazendo de errado, passando vergonha mesmo”, admite, aos risos.

A exposição, no entanto, sempre foi o objetivo. “Compondo está sempre mostrando uma coisa sua que não dá de graça, para os outros. A composição é uma coisa íntima, apesar de querer que todo mundo escute e se identifique em algum nível.”

Duas mães, um sobrenome e a vida que segue

No campo pessoal, a entrevista revela decisões importantes. Chico Chico vai incluir na certidão de nascimento o sobrenome da outra mãe, Maria Eugênia (Vieira Martins) — gesto simbólico de reconhecimento e pertencimento. Ele também fala do “nervoso” que sentiu ao ver a namorada, Luisa Arraes, caracterizada como Cássia Eller para a cinebiografia da cantora. São camadas de uma vida em que o público e o privado se misturam de forma inevitável.

Mas talvez o trecho mais duro — e mais necessário — da conversa seja o relato da batalha para ficar limpo. É dele a frase que dá título a esta matéria: “Busquei ajuda para tentar deixar de morrer aos pouquinhos”. O cantor compartilha detalhes do processo e da forma como vem lidando com as dores de quem sofreu perdas demais, transformando o palco e a composição em ferramentas de elaboração.

O legado como contexto, não como fardo

Cássia Eller morreu em 2001, quando Chico Chico tinha apenas nove anos. Desde então, sua trajetória artística foi acompanhada de perto por um público que enxerga nele tanto a continuidade de uma das vozes mais marcantes da música brasileira quanto um artista com identidade própria. A consolidação dessa identidade, agora coroada por uma indicação ao Grammy Latino e por uma turnê internacional, parece finalmente permitir que os dois planos coexistam sem ruído.

É nesse equilíbrio que Chico Chico aposta. Não se trata de apagar o passado, mas de construir um presente em que a herança seja só mais uma das camadas — ao lado de um disco longo, corajoso e vivo, de uma voz que se lapida a cada apresentação e de uma vida que, aos poucos, deixa de ser apenas sobrevoo para se tornar travessia.

Serviço

  • Turnê Let it burn/Deixa arder
  • Porto Alegre — sexta-feira
  • Belo Horizonte — dia 7
  • São Paulo — 19 de dezembro
  • Em seguida, o artista parte para sua primeira turnê internacional.

Tags: Chico Chico, Cássia Eller, Let it burn/Deixa arder, Grammy Latino 2026, música brasileira, turnê internacional, BR MUSIC